Contam
os mais velhos da Piracuruca uma
curiosa estória, que teriam ouvido, por sua vez, de seus pais ou parentes. O
suposto acontecimento, à medida que é reverberado, toma aspecto de lenda,
ficando conhecida popularmente como “A
missa da Páschoa”. Apesar da coincidência de nomenclatura, não se trata
da celebração em memória da ressurreição de Jesus,
que ocorre anualmente, em data variável, no calendário litúrgico católico.
Dona
Páschoa de Figueiredo Lima,
professora pública aposentada da Piracuruca,
é uma veneranda senhora em princípios do século XX, residindo num casarão
oitocentista da Praça Irmãos Dantas. Católica convicta, orgulha-se de
assistir a todas as missas celebradas na Igreja
Matriz de Nossa Senhora do Carmo, salvos os casos de extremo
impedimento.
Segundo
os seus relatos, certa noite-madrugada é acordada pelo badalar dos sinos, em
chamada de missa. Confusa e ainda sonolenta, apressa-se em levantar para
praticar mais um ato da sua devoção. Enquanto se arruma, dialoga com os seus
botões:
-
Mas, meu Deus... Missa à essa hora? Ainda parece tão escuro...
Terminando
de se aprontar, dona Páschoa
abre a porta e contempla, por alguns minutos, o largo da praça, tomado pelos
absolutos silêncio e escuridão. Uma brisa suave carrega o perfume exalado por
algumas touceiras de lírios de São José que florescem no canteiro em frente,
com a chegada das primeiras chuvas. Ainda envolta em dúvidas, pensa:
-
Será que hoje é domingo e eu havia esquecido? Então, se é, essa é a
missa das cinco da manhã! Ou, será que algum padre, de passagem pela cidade,
aproveitou para fazer uma celebração?
Enquanto
atravessa a praça a passos firmes e se encaminha à Igreja matriz, dona Páschoa permanece
intrigada. Aproximando-se do velho templo, resultado da promessa de dois
aventureiros portugueses na primeira metade do século XVIII, constata que suas
portas se encontram abertas e seu interior parece bem iluminado. Cruzando a
entrada principal, faz o habitual sinal da cruz e apressa-se em tomar seu lugar
de costume, pois a missa já está se iniciando. Enquanto se ajoelha para fazer
sua prece inicial, começa a perceber que algo de muito esquisito está
ocorrendo alí. Durante todo o transcorrer da celebração, procura fazer uma análise
do ambiente, o que lhe rouba a concentração em sua profissão de fé. Postado
em frente ao altar-mor, o celebrante profere o “Glória”:
-
Glòria in excelsis Deo.
Ao
que todos, em coro, respondem:
-
Et in terra pax homìnibus bonae voluntatis...
Dona Páschoa, cá em seu
banco, permanece em suas observações e indagações, entre o som das expressões
em Latim e o silêncio de seus pensamentos. Acha-se tão perturbada que resolve
não comungar com aqueles misteriosos participantes o corpo e o sangue de Cristo.
Pode observar, contudo, durante o rito da comunhão, mais detidamente, os seus
estranhos rostos.
-
Quem será toda essa gente? Não vejo nenhum conhecido...
Nota
a palidez mórbida encerrada no semblante daqueles homens, mulheres e crianças.
As vestimentas, usadas pela maioria, parecem-lhe muito antigas. Alguns cantos
litúrgicos, há tempos haviam sido abandonados... As interrogações não
cessam em sua mente: E aquele padre, quem será? A que paróquia pertence? Por
qual razão, em sua homilia, ele enfatiza tanto a vida eterna? Sim,
decididamente, tudo aquilo lhe parece muito esquisito.
Segundo
afirmará depois, por mais de uma hora, dona Páschoa participa de uma missa absolutamente incomum. Ainda
conforme a sua narrativa, o que ocorre logo após o término da celebração
toma dimensões de grande tetricidade: ao passo em que toda aquela gente sai do
templo – portando, cada um, uma vela acesa - dirige-se, em procissão, via rua
da Goela, em direção ao cemitério Campo
da Saudade. Em meio às ultimas pessoas que saem, dona Páschoa
identifica, finalmente, um rosto familiar. É uma de suas afilhadas, dentre as várias
que já havia batizado, ali mesmo, naquela Igreja. A moça dirige-se até ela e
diz, estendendo-lhe a mão:
-
Dê-me sua bênção, madrinha!
Ao
aceitar o cumprimento, dona Páschoa
sente a mão gélida da jovem. Naquele instante, tomada de pânico, lembra-se
que sua afilhada é falecida, já há alguns anos. Em fração de segundo, como
num passe de mágica, tudo desaparece... A procissão lúgubre, as velas, sua
afilhada... Voltando-se para a Igreja, vê que suas grandes portas de madeira
estão cerradas. Todo o largo se encontra mergulhado no mais profundo silêncio.
Regressando à sua residência, não mais consegue dormir, lembrando e
relembrando cada detalhe, cada momento vivido, instantes atrás. O raiar do novo
dia encontra-a sentada em sua rede, terço em punho, rezando para as almas
aflitas do purgatório.
Nos
dias que se seguem, dona Páschoa
relata, incansavelmente, aos familiares, amigos e conhecidos, a sua fantástica
estória. Alguns crédulos chegam a considerar a possibilidade de que tudo
tenha, de fato, ocorrido. Outros, mais céticos, optam por entender que a estranha
missa de dona Páschoa não passa apenas de um sonho, ou, quem sabe, é
obra da caduquice e da senilidade da vetusta professora da Piracuruca.